Fenômeno climático pode alterar regimes de chuva, afetar safras estratégicas e pressionar a inflação nos próximos meses

A possibilidade de um novo episódio intenso do El Niño ganha força nos próximos meses já mobiliza especialistas, produtores rurais e gestores públicos. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), há 80% de probabilidade de o fenômeno se consolidar entre junho e agosto de 2026. A chance de permanência até novembro chega a 90%.
Os modelos climáticos mais recentes apontam para uma rápida intensificação do fenômeno, com potencial de elevar em pelo menos 2°C a temperatura da superfície do Oceano Pacífico entre o fim de 2026 e o primeiro semestre de 2027.
Além do aumento das temperaturas, o fenômeno altera o regime de chuvas e ocorrência de eventos extremos, como secas, ondas de calor e precipitações intensas.
Os reflexos podem alcançar diretamente a produção agrícola brasileira. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estimam uma safra de mais de 340 milhões de toneladas de cereais, leguminosas e oleaginosas em 2026. Soja, milho e arroz respondem por quase 93% desse volume.
Segundo o empresário e CEO do Grupo 3TC, Ricardo Valentini, a combinação entre clima extremo e produção agrícola amplia a exposição do setor a perdas de produtividade e desafios operacionais.
“Para a agricultura, isso representa maior exposição a perdas de produtividade, alterações nos calendários de plantio e colheita e pressão sobre recursos hídricos. No Brasil, a dimensão do risco ganha relevância diante do tamanho da produção agrícola”, afirma.
Produção agrícola já enfrenta sinais de pressão
Embora a estimativa nacional para 2026 ainda permaneça 0,4% acima da safra registrada em 2025, o levantamento mais recente do IBGE aponta uma redução de 0,8% em relação à projeção anterior, o equivalente a cerca de 3 milhões de toneladas.
Entre os principais produtos, as previsões indicam retração de 3,7% na produção de milho, 11,8% no arroz e 15% no trigo na comparação com o ano passado. Ainda que esses números não possam ser atribuídos exclusivamente ao El Niño, eles evidenciam a vulnerabilidade da atividade agrícola diante das variações climáticas.
Os impactos também ultrapassam os limites do campo. De acordo com o Programa Mundial de Alimentos (WFP), um episódio intenso do fenômeno pode ampliar significativamente os níveis de insegurança alimentar em países vulneráveis.
“Os riscos não são apenas econômicos. Eles também possuem uma dimensão social importante, especialmente quando afetam a oferta de alimentos e o acesso da população aos produtos básicos”, observa Valentini.
Vídeo – veja mais sobre o Grupo 3TC:
Efeito pode chegar ao bolso do consumidor
Os reflexos do El Niño podem ser sentidos também nos índices de inflação. Em maio, o grupo Alimentação e Bebidas registrou alta de 1,33% no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). No mesmo período, a alimentação consumida dentro de casa avançou 1,65%.
Estudos do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostram que episódios de El Niño costumam exercer pressão sobre os preços globais de commodities agrícolas.
Para Valentini, o cenário exige uma mudança de postura por parte das empresas e dos gestores públicos.
“O El Niño deve ser encarado como um sinal para antecipação de riscos. Produção, consumo de energia, disponibilidade de água, infraestrutura e preços podem ser impactados. Transformar dados climáticos em planejamento é uma medida de resiliência e continuidade dos negócios”, conclui.
