Levantamento nacional mostra que mais de 67% das pessoas procrastinam exames, 53% não se hidratam adequadamente e cerca de 20% nem sabem avaliar o próprio risco de desenvolver doença renal

Apesar da alta prevalência de fatores de risco, a saúde renal segue pouco integrada à rotina preventiva dos brasileiros, influenciada pelo medo, pela desinformação e por barreiras de acesso. É o que mostra uma pesquisa nacional encomendada pela Vantive Brasil, com 2.000 entrevistados de todo o país, para compreender o nível de conhecimento, as percepções, os comportamentos e as atitudes da população em relação à saúde dos rins, à prevenção e à realização de exames.
Os resultados indicam que o principal desafio não é apenas a falta de informação, mas a dificuldade de transformar conhecimento em ação preventiva. 67,7% dos brasileiros admitem adiar a realização de exames, enquanto 53,3% afirmam não se hidratar da forma que deveriam e 39,1% são sedentários – um conjunto de comportamentos que ajuda a compor um cenário de risco.
O levantamento também mostra que o medo do diagnóstico é um importante bloqueador da prevenção. Quando questionados sobre o maior medo em relação à saúde, 60,6% disseram ter medo de descobrir algo grave, índice superior ao dos que citaram não ter dinheiro para tratar um problema de saúde (50,5%) e ao dos que temem perder a independência (30,9%).
“Os dados mostram que o brasileiro não está completamente desconectado do tema saúde, mas muitas vezes posterga o cuidado”, explica Dra. Arcângela Valle, gerente médica sênior da Vantive Latam. “Na saúde renal, isso é especialmente preocupante porque as doenças dos rins podem evoluir de forma silenciosa. O desafio é transformar medo em ação, informação em decisão e prevenção em hábito.”
Ambiente de risco renal já está presente na população
A pesquisa mostra que a população brasileira já convive com condições que impactam diretamente a saúde dos rins. Entre as condições de saúde mais relatadas pelos entrevistados, destacam-se:
- Hipertensão arterial: 26,5%
- Infecção urinária: 25,3%
- Doença renal/problemas nos rins: 7,7%
O histórico familiar amplia ainda mais esse sinal de alerta:
- 15,7% relataram histórico familiar de doença renal
- 54,9% apontaram histórico familiar de hipertensão, a condição mais citada.
“Hipertensão, diabetes, sedentarismo e histórico familiar são fatores que aumentam a vulnerabilidade dos rins, muitas vezes sem causar sintomas nas fases iniciais”, esclarece a Dra. Arcângela. “Por isso, a prevenção não pode depender apenas da percepção de estar bem: ela precisa ser parte da rotina, com acompanhamento médico e exames periódicos.”
Os dados também reforçam a conexão entre saúde renal, sedentarismo e doenças metabólicas e cardiovasculares. Entre pessoas sedentárias, a incidência relatada de doença renal foi de 8,8%, contra 5,4% entre praticantes de atividade física, uma diferença de 3,4 pontos percentuais.
Nesse mesmo grupo sedentário, também foram observadas maiores frequências de:
- Hipertensão: 30% vs. 19,7% entre praticantes de exercícios físicos
- Diabetes: 17,1% vs. 13,3%
- Problemas de circulação: 11,3% vs. 7,5%
Baixa percepção de risco atrasa diagnóstico precoce
Mesmo diante desse ambiente de risco, a percepção individual sobre a possibilidade de desenvolver doença renal ainda é baixa ou incerta. A maior parte da população acredita ter probabilidade baixa ou muito baixa (37,2%), enquanto apenas 15,4% consideram ter risco alto ou muito alto de desenvolver a condição. 20,3% afirmam não saber avaliar sua probabilidade.
Esse desconhecimento dialoga com evidências internacionais. De acordo com estudo publicado no The Lancet, em novembro de 2025, por pesquisadores da NYU, da Universidade de Glasgow e da Universidade de Washington, cerca de 14% dos adultos apresentam algum grau de doença renal e o número de casos vem crescendo nas últimas décadas[1],[2].
Conhecimento sobre tratamentos ainda é limitado
O levantamento mostra que, embora a hemodiálise seja conhecida da maioria da população, o conhecimento sobre outras modalidades de tratamento renal ainda é bastante restrito. 93,4% dos entrevistados já ouviram falar em hemodiálise, enquanto 59,5% nunca ouviram falar em diálise peritoneal. Apenas 9,8% afirmam conhecer bem a modalidade.
“Ainda existe pouca familiaridade com modalidades como a diálise peritoneal, e isso limita a compreensão sobre as possibilidades de cuidado disponíveis para cada perfil de paciente”, diz a gerente médica. “Ampliar esse conhecimento é essencial para que as pessoas possam conversar com seus médicos de forma mais informada e participar ativamente das decisões sobre o tratamento.”
Quando questionados sobre suas principais preocupações em relação à necessidade de diálise, o impacto na qualidade de vida (57,5%), o acesso a tratamento adequado (38,8%), o custo do tratamento (38,6%) e a dependência de máquinas e profissionais de saúde (37,2%) foram os receios mais citados.
Os dados apontam para uma lacuna na compreensão sobre as diferentes possibilidades terapêuticas, o que pode limitar decisões informadas ao longo da jornada do paciente.
