Pesquisa apresentada no maior congresso de oncologia do mundo associa acompanhamento remoto em cuidados paliativos a menos admissões hospitalares, menor uso de UTI e maior possibilidade de cuidado domiciliar no período final da doença

A incorporação da telemedicina aos cuidados paliativos oncológicos pode ajudar a reduzir internações hospitalares, admissões em unidades de terapia intensiva e intervenções consideradas agressivas ou pouco benéficas no fim da vida de pacientes com câncer avançado.
É o que mostra um estudo brasileiro apresentado na ASCO 2026, maior congresso mundial de oncologia, realizado em Chicago, nos Estados Unidos.
A pesquisa retrospectiva avaliou 116 pacientes oncológicos em cuidados paliativos que realizaram consultas por telemedicina nos últimos 30 dias de vida.
Os resultados mostraram associação entre o acompanhamento remoto e menores taxas de hospitalização, internação em UTI e utilização de tratamentos modificadores de doença considerados fúteis no contexto de terminalidade.
O estudo foi selecionado para apresentação oral na ASCO, espaço reservado a pesquisas consideradas de maior relevância científica e potencial impacto clínico dentro do congresso.
“Na oncologia moderna, um dos principais indicadores de qualidade em cuidados paliativos é justamente evitar que o paciente passe os últimos dias de vida no hospital, especialmente em terapia intensiva, submetido a intervenções que não modificam o curso da doença e podem aumentar sofrimento físico e emocional”, afirma o oncologista da Oncoclínicas e um dos pesquisadores envolvidos no estudo, Igor Morbeck.
Segundo ele, o objetivo dos cuidados paliativos não é apenas controlar sintomas, mas também preservar dignidade, autonomia e qualidade de vida no período final da trajetória da doença. “O que observamos é que a telemedicina pode funcionar como uma ferramenta importante para ampliar suporte, orientar famílias e favorecer um cuidado mais humanizado e centrado no paciente, muitas vezes dentro do próprio ambiente domiciliar”, explica.
Cuidados paliativos ganham espaço na oncologia moderna
Historicamente associados apenas aos momentos finais da vida, os cuidados paliativos vêm passando por uma transformação importante dentro da oncologia. Hoje, diretrizes internacionais recomendam que esse acompanhamento seja integrado mais precocemente ao tratamento de pacientes com câncer avançado, com foco não apenas no controle de sintomas físicos, mas também no suporte emocional, social e familiar.
Nas últimas décadas, estudos que a integração precoce dos cuidados paliativos pode melhorar a qualidade de vida, reduzir o sofrimento psicológico, diminuir intervenções desnecessárias e até impactar positivamente alguns desfechos clínicos.
Nesse cenário, a discussão sobre o local onde o paciente recebe assistência também ganhou relevância. Em muitos países, morrer em ambiente hospitalar, especialmente em unidades de terapia intensiva, passou a ser considerado um indicador indireto de cuidado excessivamente medicalizado no fim da vida.
“Nem sempre prolongar intervenções significa prolongar qualidade de vida”, afirma Alexandra Arantes, médica paliativista da Oncoclínicas e autora responsável pela apresentação do estudo na ASCO. “Grande parte dos pacientes deseja permanecer ao lado da família, em um ambiente conhecido, com conforto e controle adequado de sintomas. O desafio é oferecer estrutura para que isso aconteça com segurança.”
Telemedicina amplia acompanhamento e reduz deslocamentos
Embora o uso da telemedicina tenha se expandido de forma acelerada durante a pandemia de Covid-19, sua incorporação aos cuidados oncológicos permanece em evolução, especialmente em áreas que exigem acompanhamento frequente e suporte multidisciplinar.
Pacientes em cuidados paliativos frequentemente enfrentam limitações físicas importantes, dores, fadiga intensa e dificuldade de locomoção, o que pode transformar deslocamentos hospitalares em experiências desgastantes tanto para os pacientes quanto para seus familiares.
“O acompanhamento remoto permite monitorar sintomas, ajustar medicações, orientar cuidadores e apoiar decisões importantes sem que o paciente precise sair de casa constantemente”, explica a autora sênior Sarah Ananda, líder nacional de cuidados paliativos na Oncoclínicas. “Além do impacto assistencial, isso também reduz o desgaste emocional e físico em uma fase particularmente delicada da doença.”
Segundo os pesquisadores, os resultados do estudo sugerem que a telemedicina pode ajudar a reduzir internações evitáveis e intervenções agressivas sem comprometer a qualidade do acompanhamento clínico.
A discussão ganha relevância em um momento em que diferentes sistemas de saúde buscam modelos mais sustentáveis e centrados no paciente, especialmente diante do envelhecimento populacional e do aumento da incidência de doenças crônicas e oncológicas avançadas.
“Mais do que discutir tecnologia, estamos falando sobre como oferecer um cuidado mais digno, individualizado e humanizado”, afirma. “A telemedicina não substitui o atendimento presencial quando ele é necessário, mas pode ampliar suporte, facilitar acesso e ajudar pacientes e famílias a atravessarem esse período com menos sofrimento e maior acolhimento.”