Mais de 70 mil pessoas aguardam transplantes no Brasil enquanto especialistas defendem o diálogo permanente sobre o tema

Médico nefrologista Rafael Lage Madeira, do Hospital Felício Rocho, fala sobre campanha e a importância de comunica a decisão á família sobre a doação de órgãos
O nefrologista Rafael Lage Madeira ressalta que conversar com a família sobre o desejo de ser doador é fundamental para ampliar as chances de transplantes (Foto: Acervo Hospital Felicio Rocho / Divulgação)

 

A doação de órgãos costuma ganhar visibilidade durante campanhas de conscientização, como o Setembro Verde e o Dia Nacional da Doação de Órgãos, celebrado em 27 de setembro. No entanto, a decisão que pode transformar a vida de quem aguarda um transplante começa muito antes dessas datas.

Mais do que uma escolha individual, a doação depende de uma informação que precisa chegar aos familiares. No Brasil, a autorização da família é indispensável para a realização do procedimento após a confirmação da morte encefálica. Por isso, especialistas reforçam a importância de manifestar esse desejo ainda em vida. 

Segundo o médico nefrologista do Hospital Felício Rocho, Rafael Lage Madeira, ampliar o diálogo sobre o tema é uma das formas mais eficazes de fortalecer a cultura da doação no País.

 

“É fundamental que as pessoas conversem com seus familiares sobre o desejo de serem doadoras. Em um momento de dor, quando ocorre a morte encefálica, essa informação pode fazer toda a diferença para que a família compreenda e respeite uma vontade que já havia sido manifestada”, afirma.

 

Os números ajudam a dimensionar a importância dessa decisão. Dados do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), mostram que mais de 70 mil pacientes estavam ativos na fila de espera por transplantes no Brasil em dezembro de 2025.

Desse total, cerca de 38 mil aguardavam um transplante renal, enquanto 32 mil esperavam por córneas. Outras pessoas dependiam da disponibilidade de órgãos como fígado, coração, pulmão e pâncreas para continuar seus tratamentos. 

 

Estrutura existe, mas ainda faltam doadores 

O Brasil possui um dos maiores sistemas públicos de transplantes do mundo. Coordenado pelo Sistema Nacional de Transplantes (SNT), o modelo organiza as listas de espera e acompanha os procedimentos realizados em todo o País. 

Para Rafael Madeira, os avanços da medicina ampliaram significativamente as possibilidades de tratamento para pacientes com doenças graves. Ainda assim, a disponibilidade de órgãos permanece como um dos principais desafios do sistema. 

 

“Temos profissionais altamente capacitados, tecnologia e uma estrutura pública de transplantes que é referência. Ainda assim, a disponibilidade de órgãos continua sendo um dos principais desafios. Por isso, precisamos falar sobre doação não apenas quando uma campanha começa, mas durante todo o ano”, destaca.

 

Vídeo – veja mais sobre a Campanha de Conscientização de Doação de Órgãos:

 

Informação à família é essencial

A doação pode ocorrer em vida ou após a morte. No caso dos doadores vivos, é possível doar determinados órgãos, como um dos rins, ou parte do fígado, sempre mediante avaliação médica rigorosa.

Já a doação após a morte depende da confirmação da morte encefálica por critérios médicos e legais. Nesses casos, a família é consultada e tem a responsabilidade de autorizar o procedimento. 

Por isso, informar parentes próximos sobre a decisão de ser doador é considerado um passo essencial. 

 

“Não basta pensar individualmente sobre a doação. É preciso transformar essa vontade em uma conversa. Quando a família conhece a decisão da pessoa, fica mais preparada para lidar com aquele momento e entender que a doação pode representar uma oportunidade para alguém que está aguardando por um transplante”, explica o nefrologista.

 

Para o especialista, o Setembro Verde funciona como um importante convite à reflexão, mas o tema precisa permanecer presente ao longo de todo o ano. 

 

“A doação de órgãos não encerra uma história. Ela permite que a vida continue na vida de outra pessoa. Por isso, pare, pense, converse com sua família e deixe claro qual é a sua vontade. Uma conversa hoje pode fazer diferença no futuro”, conclui.

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