Nova etapa do processo intensifica depoimentos, mobiliza familiares e pode redefinir o enquadramento das responsabilidades pelo rompimento

A ação penal sobre o rompimento da barragem de rejeitos da Vale S.A., ocorrido em 2019, entrou em nova etapa no fim de fevereiro. O processo agora avança para as audiências de instrução, que apuram a responsabilidade de 15 pessoas, além das empresas Vale e da alemã TÜV Süd, pelo desastre na Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho.
Nesta fase, a Justiça realiza a escuta de testemunhas e o interrogatório dos réus. As audiências começaram no dia 23 de fevereiro de 2026 e devem se estender até 2027. Ao final desse período, a juíza Raquel Vasconcelos irá decidir se o caso configura crime doloso contra a vida. A definição será determinante para indicar se os acusados irão a júri popular.
Durante as oitivas, familiares das vítimas e sobreviventes prestam depoimento, assim como técnicos da mineradora e representantes de empresas responsáveis por laudos sobre a segurança da barragem. Esses relatos integram o conjunto de provas que sustentará a decisão judicial.
Ao mesmo tempo, o processo adota medidas de acolhimento para evitar a revitimização de testemunhas e familiares. A proposta busca reduzir impactos emocionais durante os depoimentos e impedir que o ambiente judicial se torne um novo espaço de sofrimento para os atingidos.
Acolhimento e memória acompanham avanço do processo
Nesse contexto, o Memorial Brumadinho acompanha as audiências e atua no suporte às famílias. A diretora vice-presidente da Fundação Memorial de Brumadinho e doutoranda em Direito pela UFMG, Vanessa Vieira, participa desse trabalho tanto na preservação da memória das vítimas quanto na atuação junto ao programa Polos de Cidadania.
“O Memorial tem acompanhado e prestado o suporte necessário para as pessoas que revisitam o passado e convivem com as marcas dele no presente. É importante estarmos atentas aos capítulos da história que estão sendo escritos neste instante, porque a resposta à luta por justiça será resultado de um processo que está acontecendo hoje, mas que já dura mais de sete anos. Tanto pelo Memorial quanto pelo Polos, há um apoio fundamental sendo feito para garantir direitos, inclusive à memória, e amparar as pessoas afetadas pelo rompimento”, comenta Vanessa.
O desastre, registrado em janeiro de 2019, provocou a morte de 272 pessoas, sendo 250 trabalhadores que estavam na mina no momento do rompimento. Mais de sete anos depois, os impactos socioambientais ainda permanecem e seguem mobilizando familiares, instituições e movimentos sociais.
Criado às margens da área atingida, o Memorial Brumadinho mantém viva a história do rompimento sob a perspectiva dos atingidos, com protagonismo dos familiares das vítimas. O espaço reúne acervo, ações educativas e iniciativas que reforçam a memória e ampliam o debate público sobre as consequências da tragédia.
Além disso, a Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão (Avabrum), segue como uma das principais vozes na cobrança por justiça. A entidade atuou diretamente pela criação do Memorial e garantiu que a gestão fosse independente da mineradora, hoje sob responsabilidade da Fundação Memorial de Brumadinho, com diretoria escolhida pela própria associação.