Internações por síndrome respiratória grave cresceram mais de 150% entre idosos nos primeiros meses do ano

O avanço antecipado da gripe em 2026 já começa a impactar o sistema de saúde brasileiro, com aumento significativo de casos e internações, especialmente entre a população idosa. Dados do Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP-Gripe) apontam crescimento expressivo nos registros de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) associada à influenza logo nos primeiros meses do ano.
Entre janeiro e a segunda semana de março de 2026, as hospitalizações de pessoas com 60 anos ou mais aumentaram 153% em comparação com o mesmo período do ano anterior. O cenário reforça uma tendência de agravamento que já vinha sendo observada desde 2025.
No ano passado, durante o período de maior circulação do vírus, as internações mais do que dobraram em relação a 2024. Também foi registrado aumento relevante nos casos que exigiram internação em UTI e nos óbitos associados à doença.
Circulação mais precoce chama atenção
Especialistas destacam que, neste ano, a influenza apresenta um comportamento diferente, com circulação mais antecipada e contínua em diversas regiões do país.
“O comportamento do vírus neste ano indica uma presença mais precoce e contínua. Já vínhamos observando aumento de casos desde janeiro, com crescimento mais evidente a partir de fevereiro”, explica a infectologista Nancy Bellei, professora da Unifesp e integrante de comitê da área de infecções respiratórias.
Segundo a especialista, o vírus predominante não é necessariamente mais agressivo, mas apresenta maior capacidade de transmissão.
“Não é mais grave, mas se espalha com mais facilidade, o que faz com que mais pessoas adoeçam ao mesmo tempo, inclusive dentro da mesma família”, afirma.
A médica ressalta ainda que a gripe continua sendo uma infecção de alto impacto, com risco de complicações graves, especialmente entre idosos.
“O cenário atual exige atenção redobrada e reforça a importância da prevenção”, completa.
Baixa vacinação agrava cenário
Outro fator apontado como determinante para o aumento dos casos é a baixa cobertura vacinal no país. Apesar das evidências científicas sobre a eficácia da vacina, a adesão ainda está abaixo do ideal.
O médico Drauzio Varella destaca que ainda há uma percepção equivocada sobre a importância da imunização ao longo da vida.
“No Brasil ainda existe a ideia de que vacina é apenas para crianças, o que não é verdade. A imunização é fundamental também para adultos e idosos”, afirma.
Com o envelhecimento da população brasileira, a baixa adesão à vacinação se torna ainda mais preocupante.
“Se essa população não se vacina, aumentam os riscos de internações e de quadros mais graves”, alerta.
Desinformação dificulta prevenção
Especialistas também apontam a disseminação de informações falsas como um dos obstáculos para ampliar a cobertura vacinal no país.
Conteúdos enganosos tendem a se espalhar rapidamente nas redes sociais, muitas vezes explorando medo ou apresentando soluções simplistas, o que dificulta o acesso da população a informações confiáveis.
“A desinformação costuma alcançar mais pessoas porque é mais fácil de consumir e compartilhar do que conteúdos baseados em ciência”, apontam especialistas da área.
Diante desse cenário, profissionais e comunicadores têm buscado novas estratégias para ampliar o alcance de informações corretas, utilizando formatos mais acessíveis e linguagem próxima do público.
A orientação das autoridades de saúde é que a população mantenha a vacinação em dia e adote medidas preventivas, especialmente em períodos de maior circulação do vírus.