Náuseas, tontura, dor de cabeça e até vômitos podem surgir quando a visão e o ouvido interno enviam informações contraditórias ao cérebro; especialistas explicam o fenômeno e dão dicas para evitá-lo

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Pessoas que têm dificuldade em ler no carro devem evitar (Foto: G Point Studio/Freepik)

 

Quem nunca tentou ler uma mensagem, responder um e-mail ou mergulhar em um livro durante uma viagem de carro e, poucos minutos depois, sentiu náusea, dor de cabeça ou tontura? O desconforto é mais comum do que parece e tem explicação científica. Conhecido como cinetose, ou enjoo de movimento, o problema afeta milhões de pessoas e ocorre quando o cérebro recebe informações conflitantes sobre os movimentos do corpo.

Enquanto os olhos estão fixos em uma tela, livro ou documento, transmitindo ao cérebro a sensação de que a pessoa está parada, o sistema vestibular — localizado no ouvido interno e responsável pelo equilíbrio — detecta que o corpo está em movimento. Essa divergência de informações gera uma espécie de “confusão cerebral”.

Segundo a Clínica Mayo, uma das mais respeitadas instituições médicas do mundo, a cinetose acontece quando o cérebro recebe sinais diferentes dos olhos, músculos e ouvido interno. O resultado pode ser uma série de sintomas, como náusea, suor frio, tontura, dor de cabeça, fadiga e, em casos mais intensos, vômitos.

 

“Quando aquilo que seus olhos veem é diferente do que seu ouvido interno percebe, o cérebro recebe mensagens conflitantes e pode desencadear os sintomas do enjoo de movimento”, explica a instituição em material educativo sobre o tema.

 

Por que algumas pessoas sofrem mais?

Embora qualquer pessoa possa sentir enjoo durante deslocamentos, algumas são mais sensíveis. Crianças entre 2 e 12 anos, pessoas com histórico de enxaqueca, gestantes e indivíduos com distúrbios vestibulares costumam apresentar maior predisposição.

Especialistas acreditam que fatores genéticos também desempenham papel importante. Estudos mostram que a sensibilidade do sistema vestibular varia de pessoa para pessoa, o que ajuda a explicar por que alguns conseguem trabalhar ou assistir a vídeos em viagens sem qualquer desconforto, enquanto outros passam mal em poucos minutos.

Além disso, o cérebro pode ficar mais vulnerável em situações de fadiga, estresse, privação de sono ou após longos períodos diante de telas.

O cérebro interpreta o conflito como uma ameaça

Uma das teorias mais aceitas para explicar a cinetose é a chamada “teoria do conflito sensorial”. Segundo ela, o cérebro interpreta a divergência entre os sinais enviados pelos olhos e pelo ouvido interno como uma situação anormal.

Pesquisadores da Universidade de Harvard já explicaram que essa incompatibilidade de informações ativa regiões cerebrais relacionadas ao controle do equilíbrio e do sistema digestivo, desencadeando os sintomas clássicos do enjoo.

Embora o mecanismo exato ainda seja estudado, cientistas acreditam que essa reação seja um resquício evolutivo do organismo humano. Em situações extremas, o cérebro poderia interpretar a confusão sensorial como sinal de intoxicação, provocando náuseas e vômitos como mecanismo de defesa.

Como evitar o problema

Algumas medidas simples podem reduzir significativamente o desconforto durante viagens:

• Evitar ler livros, celulares ou tablets em veículos em movimento;

• Escolher assentos com menor oscilação, como os bancos dianteiros do carro ou próximos às asas em aeronaves;

• Direcionar o olhar para o horizonte ou para objetos distantes;

• Manter boa ventilação no ambiente;

• Evitar refeições pesadas, bebidas alcoólicas e excesso de cafeína antes da viagem;

• Fazer pausas frequentes em trajetos longos;

• Dormir adequadamente antes de viajar.

Quando os sintomas são frequentes ou muito intensos, médicos podem recomendar medicamentos específicos para prevenção do enjoo de movimento.

O desafio das telas

Com a popularização do trabalho remoto e dos smartphones, os casos de desconforto durante deslocamentos tornaram-se mais comuns. Muitas pessoas aproveitam o tempo no trânsito para responder mensagens, participar de reuniões virtuais ou assistir a vídeos.

No entanto, especialistas alertam que essa prática aumenta o conflito entre os estímulos visuais e o movimento percebido pelo corpo, favorecendo o surgimento dos sintomas.

Por isso, se a viagem costuma vir acompanhada de náusea ou dor de cabeça, a recomendação é simples: guardar o celular por alguns minutos e olhar pela janela. Para o cérebro, essa pequena mudança faz toda a diferença.

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