Especialista explica por que a interrupção gradual do tratamento é considerada etapa decisiva para manter os resultados e preservar a saúde metabólica

Pessoa segura caneta emagrecedora utilizada no tratamento da obesidade, em imagem que ilustra o processo de desmame e manutenção do peso após o uso de medicamentos como Ozempic e Mounjaro
Especialistas destacam que o desmame gradual das canetas emagrecedoras é fundamental para preservar a perda de peso e evitar o reganho após o tratamento (Foto: Tatsiana Volkava/GettyImages)

 

As chamadas “canetas emagrecedoras”, popularizadas pelas marcas como Ozempic e Mounjaro, passaram a fazer parte da rotina de milhares de brasileiros no combate à obesidade.  Com a ampliação do acesso e da demanda, especialistas acendem um alerta para uma etapa menos conhecida do tratamento, mas considerada decisiva para o sucesso dos resultados: o desmame.

Após a fase de emagrecimento, a interrupção do medicamento exige o acompanhamento médico e redução gradual das doses. Segundo especialistas, suspender o tratamento de forma abrupta pode aumentar o risco de reganho de peso e comprometer benefícios metabólicos conquistados durante o processo.

O debate ganha relevância em meio à expansão desse mercado. Levantamento da Goldman Sachs estima que os medicamentos voltados para perda de peso podem movimentar cerca de US$ 100 bilhões no mundo até 2030, impulsionados pelos análogos de GLP-1 e novas terapias combinadas.

No Brasil, o avanço da demanda por esses medicamentos impulsiona o crescimento das prescrições, amplia a atuação de clínicas especializadas e aumenta a judicialização para acesso aos tratamentos. No entanto, após a fase de perda de peso, inicia-se um período que exige cautela para reduzir o risco de reganho e preservar os benefícios conquistados.

Segundo o médico gastroenterologista e cirurgião geral Mauro Lúcio Jácome, a interrupção abrupta do tratamento não é recomendada.

 

“Os estudos mostram que o melhor caminho é o desmame gradual. Não se trata de um medicamento que pode ser suspenso imediatamente após o alcance da meta clínica. A redução da dose ocorre de forma progressiva, com monitoramento constante do peso e da resposta do organismo”, explica.

 

De acordo com o especialista, a continuidade do acompanhamento médico é determinante durante essa fase. Caso o peso permaneça estável, o processo segue normalmente. Se houver sinais de reganho, os ajustes podem ser interrompidos temporariamente até que o quadro seja reavaliado. 

 

Monitoramento vai além da balança

O desmame também exige uma nova avaliação da saúde metabólica. A perda significativa de peso pode alterar vitaminas, hormônios e outros marcadores clínicos, exigindo monitoramento contínuo durante o tratamento.

 

“A redução de peso pode impactar diversos indicadores laboratoriais. Por isso, é importante repetir exames durante essa etapa. Em alguns casos, há necessidade de reposição de micronutrientes e intensificação do acompanhamento nutricional”, afirma Mauro Lúcio.

 

Segundo ele, a integração entre médico e nutricionista é um dos fatores mais importantes para manter os resultados obtidos sem dependência do medicamento.

Embora a maioria dos pacientes consiga concluir o processo de desmame, uma parcela ainda pode necessitar de acompanhamento medicamentoso por períodos mais longos. Estudos apontam que entre 5% e 10% dos casos demandam doses reduzidas para manutenção do peso ou controle glicêmico. 

Nesses casos, as doses menores, que não são as mesmas utilizadas para emagrecimento ativo, apresentam evidências robustas de segurança nesse uso prolongado.

O especialista destaca ainda que, em determinadas situações, manter uma dose reduzida pode representar uma estratégia mais segura do que interromper completamente o tratamento e enfrentar um novo ciclo de ganho de peso. 

Outro cenário observado na prática clínica envolve pacientes que retomam peso meses ou anos após o encerramento do tratamento. Nesses casos, a literatura médica indica que a reintrodução da medicação pode voltar a apresentar resultados satisfatórios.

Para Mauro Jácome, a consolidação das canetas emagrecedoras reforça a necessidade de encarar a obesidade como uma condição crônica, que demanda acompanhamento contínuo e estratégias cautelosas de longo prazo.

 

“O desmame estruturado e, quando necessário, a manutenção em baixas doses deixaram de ser etapas secundárias. Hoje, fazem parte do núcleo do tratamento, com foco na segurança do paciente e na preservação dos resultados alcançados”, conclui. 

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